SOBRE OS OMBROS DE GIGANTES
Homenagens musicais
SOBRE OS OMBROS DE GIGANTES
Homenagens musicais

Alexander Paine
órgão
16 OUT 21h30
Funchal, Igreja de São João Evangelista (Colégio)
Programa:
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
¬ Concerto em lá menor, BWV 593
› I – [Allegro]
› II – Adagio
› III – Allegro
Graeme Koehne (1956)
¬ To his servant Bach, God grants a final glimpse: The Morning Star
Marcel Dupré (1886-1971)
¬ Cœlestis urbs Jerusalem
(Le tombeau de Titelouze, Op. 38 No. 6)
Jehan Alain (1911-1940)
¬ Variations sur un thème de Clément Jannequin, JA 118
Jean Langlais (1907-1991)
¬ Fantaisie
(Hommage á Frescobaldi, Op. 70 No. 5)
George Thalben-Ball (1896-1987)
¬ Variations on a theme by Paganini, para pedaleira solo
Johannes Brahms (1833-1897)
¬ Prelúdio-coral Choral prelude «Schmücke dich, o liebe Seele», Op 122, No. 5
Franz Liszt (1811-1886)
¬ Fantasia e fuga sobre B-A-C-H
O passado e o presente sempre ocuparam uma relação complexa e repleta de nuances na prática musical. Afinal, a performance é uma forma de arte temporal: existe apenas no momento da sua execução, não existem duas interpretações iguais, a experiência de cada público é única. No entanto, os músicos são reféns do passado, dos compositores que interpretam, recorrendo sempre ao repertório de outrora para a música de hoje. Seja por se sentirem em dívida, ressentidos ou inspirados pelos seus antecessores musicais, é inevitável que a influência destes se manifeste na sua própria prática contemporânea. E, por vezes, este sentimento de dívida transcende a nebulosidade e torna-se uma celebração consciente: identificar e homenagear algum outro músico através da sua própria prática como intérprete ou compositor. Em alguns casos, os laços são óbvios. As transcrições de J. S. Bach dos concertos orquestrais de Vivaldi são reproduções quase fiéis, habilmente rearranjadas para as tornar adequadas ao órgão. As variações de Alain e Thalben-Ball representam exercícios mais idiossincráticos sobre material temático preexistente numa nova forma, no entanto, são homenagens evidentes. De facto, a versão de Thalben-Ball do célebre Capriccio n. 24 de Paganini, obra há muito associada ao virtuosismo e ao brilhantismo técnico, para pedaleira de órgão a solo (pelo menos até à fulminante variação em estilo toccata), é um exemplo claro de que Thalben-Ball segue não só o precedente de Paganini, mas também o de muitos outros compositores que reelaboraram este tema em arranjos a solo igualmente virtuosos. O prelúdio-coral é, naturalmente, um elemento básico da literatura organística e (dado que todo o prelúdio coral é uma exploração de uma melodia mais antiga numa linguagem contemporânea) pode ser visto como uma fascinante intersecção entre passado e presente em função e forma. Este programa apresenta três desses arranjos de corais, todos eles homenageando as suas melodias originais – e outros compositores anteriores. A versão de Koehne para Wie schön leuchtet der Morgenstern recorda um tocante episódio da vida de J. S. Bach, que, segundo consta, já idoso recuperou brevemente a visão antes de falecer. A coleção de corais de Dupré convida enigmaticamente o público a reflectir não só sobre o legado de Titelouze, mas também sobre a possibilidade de a influência do grande compositor barroco na música francesa para órgão ser incontornável. Por fim, o comovente e enganadoramente simples Schmücke dich, o liebe Seele, de Brahms, composto perto do fim da sua vida, é dedicado (tal como os outros corais da colecção) à sua querida amiga e apoiante, Clara Schumann, recentemente falecida. No entanto, em última análise, se há algum compositor cujo legado é verdadeiramente duradouro, será Bach. E assim chegamos ao tratamento monumental de Liszt para o motivo musical B-A-C-H, um dos fragmentos temáticos mais incontornáveis da música ocidental. Dramática, melancólica, indulgente e, em última análise, triunfante, a obra de Liszt é inegavelmente um produto do século XIX, mesmo prestando homenagem ao mestre barroco através de uma forma musical decididamente antiquada (Liszt não compôs nenhum outro par de Prelúdio e Fuga na sua carreira), para um instrumento então fora de moda (embora um organista competente, Liszt compôs um repertório relativamente reduzido para órgão). É um encontro do antigo e do novo, uma demonstração de brilhantismo pessoal aliada a uma profunda reverência. É a obra de um músico consciente de que se está a apoiar nos ombros de gigantes – e, talvez, de que, ao fazê-lo, se está a tornar ele próprio num gigante.
Alexander Paine