TRAVESSIAS
Da Europa barroca à América do Sul

TRAVESSIAS
Da Europa barroca à América do Sul


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Elisa Freixo
órgão


17 OUT 21h30
Machico, Igreja de Nossa Senhora da Conceição


Programa:

Sebastian Aguilera de Heredia
(1561-1627)
¬ Salve Regina

Abraham van den Kerckhoven
(1618-1701)
¬ Fantasia

Alessandro Scarlatti (1660-1725)
¬ Tocata em Lá maior 
› Allegro
› Presto
› Partita alla lombarda
› Fuga

Carlos Seixas (1704-1742)
¬ Sonata para órgão em Sol maior 

Domenico Scarlatti (1685-1757)
¬ Sonata em ré menor

Anónimo Anonymous
(Chiquitos, Bolívia, séc XVIII)
¬ Toccata
¬ Folias

João Wilson Faustini (1931-2023)
¬ Currupio

Leo Schneider (1910-1978)
¬ Caixinha de música

Marcos Portugal (1762-1830)
¬ Sonata para órgão em Ré maior 

Sebastian Aguilera de Heredia
¬ Tiento de batalla


A história da música é também uma história de viagens. Compositores, manuscritos, instrumentos e ideias atravessaram fronteiras durante séculos, acompanhando as transformações políticas, religiosas e culturais do mundo ocidental. Poucos lugares simbolizam esse movimento de forma tão eloquente quanto a Ilha da Madeira. Situada nas grandes rotas atlânticas, foi ponto de partida para inúmeras expedições e tornou-se um espaço privilegiado de circulação entre Europa, África e América. Este programa propõe uma travessia musical que percorre diferentes épocas e regiões, revelando como a tradição organística se construiu através do diálogo entre culturas. A viagem começa na Península Ibérica do final do Renascimento, com duas obras de Sebastián Aguilera de Heredia, um dos grandes mestres do órgão espanhol. O recolhimento do Salve Regina abre o concerto em clima de contemplação, enquanto o exuberante Tiento de batalla, apresentado ao final, encerra o percurso com extraordinária energia. Entre esses dois extremos desenha-se um amplo arco histórico e sonoro.

A Fantasia, de Abraham van den Kerckhoven, representa a importante tradição organística dos Países Baixos espanhóis. A sua escrita contrapontística demonstra o refinamento alcançado por uma escola que exerceu influência sobre grande parte da Europa. Em seguida, Joseph de Torres aproxima o ouvinte do ambiente musical espanhol do início do século XVIII. A monumental Toccata de Alessandro Scarlatti marca esse momento de renovação estética. Alternando episódios de grande brilho, passagens virtuosísticas, uma elegante Partita alla lombarda e uma fuga conclusiva, a obra revela a extraordinária riqueza da linguagem italiana barroca. Carlos Seixas e Domenico Scarlatti representam, por sua vez, um dos capítulos mais fascinantes da história musical portuguesa. A convivência entre os dois músicos em Lisboa produziu um intenso intercâmbio artístico, perceptível na liberdade formal, na elegância melódica e na inventividade de suas sonatas para teclado. Na segunda parte do programa, a travessia alcança a América do Sul. A Toccata e as Folias, preservadas nos manuscritos das Missões de Chiquitos, na atual Bolívia, pertencem a um repertório que permaneceu desconhecido durante séculos. Redescobertas apenas na segunda metade do século XX, essas obras testemunham o florescimento de uma intensa vida musical nas reduções jesuíticas, onde músicos indígenas e europeus compartilharam conhecimentos e construíram uma tradição artística singular. A criação brasileira comparece através de duas obras de grande personalidade. Em Currupio, João Wilson Faustini inspira-se na figura lendária do Curupira para criar uma escrita de forte imaginação rítmica e expressiva, aproximando o universo do órgão da riqueza da cultura popular brasileira. Já Caixinha de música, de Leo Schneider, revela outra face da produção nacional: uma escrita delicada de refinada sensibilidade. A presença de Marcos Portugal estabelece uma ligação direta entre Portugal e o Brasil. Figura central da vida musical luso-brasileira entre o final do século XVIII e o início do XIX, sua obra simboliza uma época em que repertórios, músicos e ideias circulavam intensamente entre os dois lados do Atlântico. Mais do que apresentar um panorama histórico, Travessias procura revelar como a música se transforma ao cruzar fronteiras. Ao longo de mais de quatro séculos, o órgão permanece como testemunha privilegiada desses movimentos, preservando memórias e construindo relações entre continentes.

Elisa Freixo