O VENTO DO SUL

O VENTO DO SUL


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Alexander Paine
órgão


18 OUT 18h00
Ponta do Sol, Igreja de Nossa Senhora da Luz


Programa:

Dieterich Buxtehude (1637-1707)
¬ Canzona, BuxWV 166

Jan Pieterszoon Sweelinck (1562-1621)
¬ Pavana hispanica

Hans Leo Hassler (1564-1612)
¬ Canzon in F

Johann Pachelbel (1653-1706)
¬ Fuga em Dó maior

Johann Caspar Kerll (1627-1693)
¬ Toccata cromatica con durezze e ligature

Georg Muffat (1653-1704)
¬ Passacaglia

Bernardo Pasquini (1637-1710)
¬ Toccata con lo scherzo del cucco

Giovanni Salvatore (1620-1688)
¬ Canzone francese seconda, del nono tuono naturale

Domenico Zipoli (1688-1726)
¬ Canzona em Fá maior
¬ Al post Comunio

Maurice Greene (1696-1755)
¬ Voluntary III em lá menor
› Largo
› Andante

John Stanley (1712-1786)
¬ Voluntary II em ré menor, Op. 5 n.º 2
› Slow
› Allegro

Alexander Paine (1992)
¬ Tema com variações 


Em 1585, um jovem músico chamado Hans Leo Hassler atravessou os Alpes e regressou à Alemanha, após mais de um ano a estudar em Veneza. Com ele, trouxe um estilo de composição novo e impactante: música que demonstrava virtuosismo e invenção, que tratava o texto e a dissonância com inovação radical e que apreciava o luxuriante e o extravagante. Durante séculos, as inovações e os estilos musicais que vieram remodelar a cultura europeia nasceram no Sul, da canzona e da toccata à diminuição e à imitação, e ainda ao madrigal e à ópera. Neste programa, percorremos o caminho desde o frio intenso do norte da Europa até ao extremo sul, sempre atentos à preponderância das influências musicais meridionais. A primeira parte do programa apresenta Buxtehude, Sweelinck e o já referido Hassler — compositores que nasceram e que desenvolveram actividade na Dinamarca, Holanda e norte da Alemanha, mas que foram profundamente influenciados pelos idiomas e estilos musicais do sul da Europa, chegando mesmo (no caso da Pavana hispanica) a procurar, de alguma forma, imitá-los e evocar uma imagem da vida numa terra distante. A partir daí, passamos para Pachelbel, Kerll e Muffat. Muffat, em particular, merece uma menção especial, pois, tal como Hassler, estudou em Itália (nomeadamente com Pasquini, que também será apresentado mais adiante no programa) e era de renome pela sua divulgação de línguas italianizantes contemporâneas na sua música de "estilo misto" inconfundível. Além disso, a passacaglia, enquanto forma musical, bem como a canzona, a toccata e até a fuga, provêm também do sul da Europa – embora não de Itália – tendo as suas origens na Espanha do início do século XVII como forma de interlúdio, antes de ser melhorada por Frescobaldi e desenvolvida na sua forma actual como variações sobre um baixo ostinato. A partir daqui, atravessamos os Alpes, com a encantadora obra imitativa de Pasquini sobre o característico canto do cuco (um motivo adorado e frequentemente utilizado no início do Barroco) e Salvatore. De seguida, passamos para Zipoli, outro aluno de Pasquini, que representa o ponto mais a sul do programa até à agora, tendo passado os últimos anos da sua curta vida como missionário no Vice-Reino do Peru. Da América do Sul, regressamos ao norte e à Europa para a parte final do concerto: uma selecção de obras de Londres, o próprio berço cultural meridional da Inglaterra. Não é injusto dizer que a história da música inglesa há muito que trilhou o seu próprio caminho, distinto da Europa continental, mas não independente dela, com compositores italianos a influenciar nomes como Tallis, Purcell e os compositores posteriores aqui representados. Finalmente, uma obra que imita conscientemente este estilo do final do século XVIII, que escrevi em 2020 numa tentativa de captar algo deste elegante stile galante. Contudo, embora escrita num idioma distintamente europeu, é, no entanto (assim como eu), em última análise, um produto da terra australis, a terra do Sul, e é um privilégio apresentá-la como parte desta celebração musical do sul, em todas as suas formas.

Alexander Paine