ENCONTROS
Portugal, Espanha e América do Sul ao órgão

ENCONTROS
Portugal, Espanha e América do Sul ao órgão


Image

Elisa Freixo
órgão


19 OUT 21h30
Funchal, Igreja de São João Evangelista (Colégio)


Programa:

Georg Muffat (1653-1704)
¬ Tocata tertia

Johann Caspar Kerll (1627-1693)
¬ Passacaglia

Antonio Leal Moreira  (1758-1793)
¬ Sonata em Si bemol maior 

› Allegro
› Rondó

Domenico Zipoli (1688-1726)
¬ All´ Elevazione II

Anónimo
(Chiquitos, Bolívia, séc. XVIII)

¬ Allegro

Calimerio Soares (1944-2011)
¬ Tocata breve

Angelo Camin (1913-1989)
¬ Scherzo

Eduardo Frigatti (1985)
¬ A imitação do amanhecer

Alberto Ginastera (1916-1983)
¬ Toccata, villancico y fuga


Desde o século XV, o Atlântico deixou de ser uma fronteira para se tornar num espaço de circulação de pessoas, ideias, crenças e expressões artísticas. A Ilha da Madeira, situada no coração dessas rotas marítimas, testemunhou o início de inúmeras viagens que aproximaram continentes e transformaram profundamente a história da cultura ocidental. Este programa propõe um percurso musical inspirado nesse movimento contínuo de aproximação entre Europa e América do Sul, revelando como diferentes tradições dialogaram, se influenciaram mutuamente e produziram uma herança artística comum. O concerto inicia-se com Georg Muffat e Johann Caspar Kerll, dois dos mais importantes representantes da tradição germânica do século XVII. Ambos foram profundamente marcados pelo contacto com diferentes escolas europeias. Muffat estudou em França, conheceu a tradição italiana e dedicou grande parte de sua obra à conciliação desses estilos nacionais, enquanto Kerll estabeleceu uma sólida ponte entre o universo germânico e a escrita italiana. Já nas primeiras obras do programa percebe-se que a história da música europeia foi construída por encontros. A presença de António Leal Moreira introduz o ambiente musical português do final do século XVIII. A sua sonata representa um período de grande vitalidade da música sacra e instrumental em Portugal, herdeira das tradições ibéricas, mas igualmente aberta às influências que circulavam pelas principais cortes europeias. É nesse contexto que a Península Ibérica se torna o ponto de partida para uma nova etapa desta viagem. Com Domenico Zipoli, a narrativa atravessa o Atlântico. Formado na tradição italiana, o compositor ingressou na Companhia de Jesus e estabeleceu-se nas reduções da América do Sul, onde desenvolveu uma das mais notáveis experiências musicais do período colonial. Ao lado de sua obra, a música preservada no Arquivo de Chiquitos, na actual Bolívia, constitui um testemunho excepcional desse património. Nessas comunidades missioneiras, músicos indígenas e europeus construíram um repertório de extraordinária riqueza, no qual diferentes culturas encontraram formas de convivência e criação artística. Muito além de simples transplantes da música europeia, essas obras revelam uma tradição própria, que continua a despertar interesse crescente entre investigadores e intérpretes. A segunda parte do programa aproxima o público da produção sul-americana dos séculos XX e XXI. Calimério Soares, Angelo Camin e Eduardo Frigatti representam diferentes gerações de compositores que renovaram a escrita para órgão sem romper o diálogo com o passado. Em linguagens muito distintas, as suas obras demonstram como a tradição continua viva e capaz de se reinventar continuamente. O encerramento com Toccata, villancico y fuga, de Alberto Ginastera, reúne de maneira exemplar muitos dos caminhos percorridos ao longo do concerto. A força rítmica, a escrita virtuosística e as referências à tradição ibérica e latino-americana sintetizam séculos de intercâmbio cultural, oferecendo um desfecho de grande intensidade. Mais do que reunir compositores de diferentes épocas e países, o programa revela uma história construída pelo diálogo entre culturas. O órgão, presente tanto nas grandes igrejas europeias quanto nas catedrais e missões do continente americano, torna-se símbolo dessa continuidade histórica. Através dele, celebramos não apenas as viagens do passado, mas também a permanente capacidade da música de aproximar povos, preservar memórias e criar novos encontros.

Elisa Freixo