DA ILHA AO HORIZONTE
DA ILHA AO HORIZONTE

Gregório Gomes
órgão
Ana dos Santos
mezzo-soprano
20 OUT 21h30
Funchal, Igreja de Santa Luzia
Programa:
I. A IlhaThe Island
Johann Sebastian Bach (1685–1750)
¬ Tocata em dó menor, BWV 911
Henry Purcell (1659–1695)
¬ Fairest Isle
Roger Quilter (1877-1953)
¬ Go, Lovely Rose, Op. 24, n.º 3
II. Silêncio e Interioridade
Henry Purcell
¬ O Solitude
Richard Prizeman (1953)
¬ Ave Maria
John Stanley (1712-1786)
¬ Voluntary em ré menor, Op. 5, n.º 8
III. Vida e Esperança
Joseph Haydn (1732–1809)
¬ With verdure clad the fields appear
(Die Schöpfung, versão inglesa)
Georg Friedrich Haendel (1685-1759)
¬ O thou that tellest good tidings to Zion
Samuel Barber (1910-1981)
¬ Sure on This Shining Night, Op. 13, n.º 3
Sigfrid Karg-Elert (1877–1933)
¬ Humoreske, Op. 101, n.º 7
IV. O Horizonte
Charles Villiers Stanford (1852-1924)
¬ Crossing the Bar
Concebido para assinalar os cinquenta anos da Autonomia da Madeira, este programa reúne obras de diferentes épocas e países, unidas por um fio condutor: a identidade da ilha, a sua relação com o Atlântico e a sua vocação de encontro entre culturas. Sem pretender ilustrar cronologicamente a história da Madeira, o concerto propõe um percurso que parte da contemplação da ilha, atravessa momentos de introspeção e celebração e termina evocando o horizonte, símbolo das viagens e da diáspora madeirense. A abertura com a Tocata em dó menor, BWV 911, de Johann Sebastian Bach, estabelece um ambiente de solenidade e afirmação. A escolha de Bach vai além da sua posição central na história da música ocidental. A sua obra sintetiza as principais correntes musicais europeias do barroco, reunindo influências alemãs, italianas e francesas numa linguagem de extraordinário equilíbrio. Tal como a Madeira se afirmou como ponto de encontro entre povos e culturas no Atlântico, também Bach reuniu diferentes tradições musicais numa linguagem universal que se tornou fundamento da música ocidental. A sua presença simboliza as raízes sobre as quais assenta o percurso do concerto. Henry Purcell assume igualmente um significado particular. Em Fairest Isle, a ilha é apresentada como lugar de beleza e identidade, permitindo uma associação imediata à Madeira. Já O Solitude introduz um momento de contemplação e serenidade, evocando a dimensão mais íntima da experiência insular. A presença de Purcell estabelece uma ligação à tradição musical inglesa, adequada ao órgão utilizado neste recital. A presença de Roger Quilter, também compositor inglês, reforça essa continuidade estética. Em Go, Lovely Rose, a imagem da flor evoca a riqueza da flora e da paisagem madeirense, elementos na origem da designação de Ilha Jardim. O momento seguinte reúne obras que refletem a dimensão espiritual e celebrativa da identidade madeirense. O Ave Maria, de Richard Prizeman, recorda a importância da tradição religiosa na cultura do arquipélago. O Voluntary em ré menor, de John Stanley, é um dos exemplos mais representativos da literatura inglesa para órgão, valorizando o instrumento e reforçando a presença da tradição britânica. A terceira parte centra-se na celebração da vida, da natureza e da esperança. Em With verdure clad the fields appear, Joseph Haydn apresenta a natureza como símbolo de abundância e renovação, valores associados à riqueza paisagística da Madeira. Rejoice greatly, de Georg Friedrich Händel, acrescenta um carácter jubiloso, apropriado às comemorações da Autonomia. A Humoreske, de Sigfrid Karg-Elert, introduz um momento de leveza instrumental antes de Sure on This Shining Night, de Samuel Barber, evocando os Estados Unidos da América, um dos principais destinos da emigração madeirense. O concerto termina com Crossing the Bar, de Charles Villiers Stanford, sobre o poema de Alfred, Lord Tennyson. A travessia do mar transforma-se numa metáfora da partida, da coragem perante o desconhecido e da esperança no reencontro. Como conclusão, a obra sintetiza a vocação atlântica da Madeira e recorda que o mar, mais do que uma fronteira, constituiu um espaço de ligação entre a ilha e o mundo. Da Ilha ao Horizonte afirma-se como homenagem musical à identidade madeirense, celebrando a sua cultura, a abertura ao exterior e a preservação das suas raízes.
Gregório Gomes