O SOPRO E O TEMPO
O SOPRO E O TEMPO

António Esteireiro
órgão
Gonçalo Pescada
acordeão, bandoneón, accordina
23 OUT 21h30
Funchal, Igreja de São Martinho
Programa:
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
¬ Concerto em ré menor, BWV 596
(Transcrição do concerto RV 565 de Antonio Vivaldi)
› I – [Allegro]
› II – Grave
› III – Fuga
› IV – Largo e spiccato
› V – [Allegro]
Léon Boëllmann (1862-1897)
¬ Suite gothique (1895)
› I – Introduction – Choral
› II – Menuet gothique
› III – Prière à Notre-Dame
› IV – Toccata
César Franck (1822-1890)
¬ Prélude, fugue et variation, Op. 18
Georgi Muschel (1909-1989)
¬ Toccata
Astor Piazzolla (1921-1992)
¬ Ave Maria
¬ Oblivion
Antonio Vivaldi (1678-1741)
¬ Concerto em fá menor, op. 8, n.º 4, RV 297 «L’Inverno»
› I – Allegro non molto
O projeto Quatro Ventos reúne órgão, acordeão, bandoneón e accordina – quatro instrumentos de diferentes origens e tradições, mas unidos por um elemento essencial: o ar. Movido pelo fole, conduzido através dos tubos ou diretamente pelo sopro, é o ar que coloca em vibração palhetas e colunas sonoras e permite a esses instrumentos construir melodia, harmonia e contraponto. É também ele que torna possível o diálogo entre universos sonoros aparentemente distantes. Esta ideia adquire uma ressonância particular na Madeira, território cuja história e identidade se construíram num permanente diálogo entre a condição insular e a abertura ao exterior. Num festival marcado pela celebração dos cinquenta anos da Autonomia da Madeira e pela evocação da Insulana, publicada em 1635, o percurso de Quatro Ventos pode ser entendido também como uma viagem entre tempos, lugares e linguagens musicais. O programa inicia-se com Johann Sebastian Bach e o Concerto em ré menor, BWV 596, transcrição do Concerto RV 565 de Antonio Vivaldi. O encontro entre estes dois compositores é já, em si mesmo, um exemplo de circulação musical: Bach apropria-se do modelo italiano do concerto, transformando-o através da sua própria linguagem contrapontística. Na presente formação, o jogo entre planos sonoros e a alternância entre episódios solísticos encontram novas possibilidades no diálogo entre órgão e acordeão. A Suite gothique, de Léon Boëllmann, conduz-nos ao universo do órgão romântico francês. Os seus quatro andamentos percorrem atmosferas contrastantes, desde a solenidade da Introduction-Choral e a leveza do Menuet gothique até à interioridade da Prière à Notre-Dame e ao impulso rítmico da Toccata. Também francesa, mas de carácter mais intimista, é a escrita de César Franck no Prélude, fugue et variation, Op. 18, obra em que lirismo e construção contrapontística se desenvolvem com particular equilíbrio. Com a Toccata, de Georgi Muschel, o programa entra no século XX através de uma escrita marcada pela energia e pelo movimento. Seguem-se duas páginas de Astor Piazzolla, Ave Maria e Oblivion, nas quais surge uma expressão mais lírica e contemplativa. O bandoneón, profundamente associado ao universo do tango argentino, estabelece aqui uma relação especialmente próxima com a linguagem do compositor. O percurso encerra regressando a Vivaldi, com o primeiro andamento de L’Inverno, de Le quattro stagioni. Através de figuras repetidas, contrastes e movimento incessante, a música parece tornar audível a própria ação dos elementos – e, inevitavelmente, do vento. Entre a Insulana do século XVII e a celebração contemporânea dos cinquenta anos da Autonomia pode, assim, reconhecer-se um mesmo tema de fundo: a construção de uma identidade que se afirma sem se fechar sobre si própria. Em Quatro Ventos, essa ideia torna-se som: quatro instrumentos respiram, dialogam e seguem diferentes direções, unidos pelo mesmo ar – como uma ilha que afirma a sua voz própria sem deixar de escutar os ventos que chegam de outros lugares.
António Esteireiro