INSULANA
Poema épico para soprano, órgão e cordas

INSULANA
Poema épico para soprano, órgão e cordas


Image

Patrycja Gabrel
soprano

Laura Silva Mendes
órgão

Orquestra Clássica da Madeira

Norberto Gomes
direção


PRIMEIROS VIOLINOS

Norberto Gomes
concertino

Olena Soldatkina
ass. concertino

Valeriy Perzhan, Marcelo Caldeira 


SEGUNDOS VIOLINOS

Yuriy Kyrychenko
chefe de naipe 

Natacha Guimarães, Andrei Vizir, Anahit Dalakyan


VIOLAS

Volodymyr Petryakov
chefe de naipe

Rostyslav Kuts, Francisco Caldeira 


VIOLONCELOS

Marina Gyumishyan
chefe de naipe

Iryna Bandura 


CONTRABAIXO

Gábor Bolba
chefe de naipe


24 OUT 21h30
Funchal, Sé


Programa:

João Santos (1979)
¬ I – Revelação
(Primeiro descobrimento: amores trágicos de Robert Machim e Ana de Harfet)

Mas tanto que o jardim do rico Oriente
Com a purpúrea cor claro se ria,
De ver que a Aurora sai resplandecente
E que a rosa do céu amanhecia,
Preparado Machim com o mais da gente,
Com Ana sai à terra em companhia,
Porque com fermosura, e em tal hora,
Envejada quer ser da clara Aurora.

As aves de mil cores nas ribeiras,
Com o vento que lhes dá, lascivo e brando,
Da inculta estância próprias lisonjeiras,
Que uma cidade nela estão formando,
A receber os Anglos saem ligeiras,
E Sirenas do sítio são, cantando,
A cujas pausas, trinos e requebros,
Respondem da ribeira os doces quebros.

Aqui Machim, com Ana, em doce glória,
Esquecia do mar a dura guerra,
A seus amores dando larga história,
Na praia, na ribeira, vale e serra;
Os companheiros, com maior memória,
Da terra pera a nau, da nau à terra,
Iam e vinham alegres, e aumentavam
As glórias que na terra os dous gozavam.

«Ai», disse, «doce amor, desta alma minha,
A quem deixaste em noite tenebrosa,
Sol, em cuja alta luz a glória tinha,
Que foi em dar‑me vida poderosa,
Norte, que há tantos tempos que encaminha
A vista de meus olhos amorosa,
Como, se dela tens a liberdade,
Me deixas hoje em tanta saudade?»

João Caldeira (1986)
¬ II – Sonho
(Descobrimento oficial: a Ilha fala ao Capitão Zarco em sonhos)

Do agradável rosto, por mostrar‑se,
Tirou um véu, com que, deixando ver‑se,
Mostrou beleza tal, que nem pintar‑se
Nem seu natural pode encarecer‑se,
Ao Íris só se via avantejar‑se,
Mas por melhor do Zargo conhecer‑se,
Contente se lhe chega à cabeceira,
E alegre lhe falou desta maneira:

«Insigne Capitão, tronco famoso
Da grão progénie, ilustre e valerosa,
A quem o Autor do Mundo poderoso
Criou para exaltar a Fé gloriosa,
Cujo estandarte, em tudo venturoso,
Com mão potente, forte e belicosa,
Arvorado será gloriosamente,
Da Ursa Boreal ao Cancro ardente.

A Ilha sou famosa, que buscando
Com fama vás, no mar caminho abrindo,
Que a glória estou de ti alta esperando,
Que a fama levará do Tejo ao Indo;
Guiado vens do céu, porque aumentando
O que te vão seus astros influindo,
Com novo nome me farás gloriosa,
E a esse Atlante ouvida por famosa.

Que este lugar que agora, alegre, piso,
Depois que o mundo foi por Deus criado,
Em deleites, segundo Paraíso,
Com glória para ti foi reservado,
Por teu ser, com prudência e com aviso,
Será feliz ao mundo divulgado,
Porque conheça, quando queira honrar‑te,
Que da Fé lhe arvoraste o estandarte.»

Sérgio Silva (1981)
¬ III – In dedicatione
(Projetos dos povoadores: o açúcar, a Sé e a diocese)

O generoso Infante, que procura
Fazer a nova terra mais famosa,
Por canas mandará pera a cultura
À ilha de Sicília venturosa,
Canas, que o rico açúcar com doçura
Darão, que sendo ambrosia preciosa,
Será por ser do mundo a mais prezada,
De Júpiter e Juno desejada.

Em cento e trinta igrejas amplifica
Estas glórias, e outras afamadas,
Algumas que, por obra altiva e rica,
Basílicas serão sempre chamadas,
Paróquias, trinta e seis, das quais aplica
Sós nove, pera ser colegiadas;
As devotas edículas, noventa,
Com quem, na religião, mais fé se aumenta.

A Catedral, que entre elas resplandece,
Qual o Sol, entre os outros seis planetas,
Metrópole verás, que se engrandece
Nas marítimas mais longínquas metas,
Que seu cabido e clero a enobrece,
Com dignidades altas e discretas,
Não só com sangue nobre, mas com lustres,
Das virtudes e letras sempre ilustres.

Terá dous órgãos, mas o mais prezado,
Com cinco reais castelos diferentes,
Circular o do meio, e em quadrado,
Os dous que mostram ser mais eminentes,
Agudos dous e, à vista este, frautado,
Com aparência e vozes excelentes,
Que em canto de órgão e chão, com charamelas,
Vozes do Céu pareçam todas elas.

Daniel Davis (1990)
¬ IV – Campos Elíseos
(Abundância da Madeira)

Todo o ano perpétua primavera
Observando por flores e boninas,
Será Elísio Campo em breve esfera,
Nas plantas, ervas e águas cristalinas,
Que em canas, por verdor à vista, espera
Ser beleza das Ilhas peregrinas,
E confortar com cheiro, e com fragrância,
A quem a vir no mar, a grão distância.

Das flores, as fragrâncias mais suaves,
E em toda a hora, como matutinas,
No canto, o aprazível mais das aves,
Da vida e da saúde, as mais benignas,
As purezas das fontes menos graves,
Porque as nítidas águas cristalinas,
Por claras, puras, frias e delgadas,
Serão de toda Europa as mais prezadas.

Por levadas, canais, por aquedutos,
E por natural curso conduzidas,
Dando frescura à Ilha, por tributos,
As terras deixarão enriquecidas,
Regaladas e férteis, pera os frutos,
Pera os pastos dos gados mais subidas,
Vegetando mil árvores e plantas,
Variedades de flores e ervas santas.

Não trato dos legumes a abundância,
Nem de hortaliças várias, e estimadas,
Das conservas famosas a jactância,
Que inda serão do mundo as mais prezadas,
Que o trato, com magnífica importância,
Trará de várias partes carregadas
As velívolas naus que, cada dia,
Opulenta a farão na mercancia.


Assinalando a celebração dos cinquenta anos da Autonomia da Madeira, a Direcção Regional de Cultura encomendou a quatro compositores uma obra (consistindo, na realidade, em quatro peças a executar sucessivamente) baseada no poema Insulana de Manuel Tomás. A obra (intitulada também Insulana) é estreada hoje, no âmbito da 15ª edição do Festival Internacional de Órgão da Madeira. Quatro pequenos textos, seleccionados por Marta Marecos Duarte, foram entregues a quatro compositores portugueses (dois deles naturais da Madeira): João Santos, João Caldeira, Sérgio Silva e Daniel Davis. Os quatro textos aludem a quatro momentos chave no poema épico de Manuel Tomás. Aos compositores, exceptuando a obrigação de se submeterem ao texto e de se cingirem aos efectivos indicados (soprano, órgão e cordas), foi dada inteira liberdade. Insulana assume, assim, uma variedade que reflecte a natureza dos quatro textos e também as opções e a personalidade dos quatro autores. Na primeira secção, Revelação, de João Santos, «a história trágica de Robert Machim e Ana de Harfet evolui entre a descoberta da ilha, o deslumbramento e a perda. A música começa num ambiente deliberadamente épico, hímnico e marchante, com o órgão em figurações com carácter de toccata e um tema que regressa ao longo da peça sob diferentes perspetivas. Alternam-se momentos mais recitativos com outros de carácter mais descritivo. Entre o deleite e a tragédia, a natureza é ao mesmo tempo lugar de acolhimento e plenitude, mas também cenário de uma felicidade efémera, tornando a ilha simultaneamente paradisíaca e fúnebre. No final, tudo se converte em memória e saudade». A segunda secção, Sonho, de João Caldeira, relata o descobrimento e «apresenta a personificação da Ilha através de um sonho, e sonhando deixamo-nos embalar pelas palavras formosas desta Ilha que se revela e entrega-se ao Capitão Zarco. Cada nuance e cada palavra pairam e ecoam pelo espaço de uma inconsciência reveladora». Sérgio Silva, autor da terceira secção, In dedicatione, opta pela citação de melodias litúrgicas: «Num capítulo dedicado essencialmente à temática da Igreja, afigura-se pertinente recorrer ao canto gregoriano – sendo o canto próprio da liturgia romana – e, mais especificamente, ao repertório da liturgia para a Dedicação de uma Igreja, como material de base [...]. Neste contexto, a antífona do Introitus da Missa, «Terribilis est locus iste», constitui o material de referência para a primeira estrofe; o Graduale, «Locus iste», serve de base à segunda; a antífona da Communio, «Domus mea», à terceira; e, por fim, o hino de Vésperas da mesma liturgia, «Cælestis urbs Jerusalem», à última estrofe da secção. Finalmente, de Daniel Davis, «Campos Elísios, que nasce da quarta parte do poema Insulana, intitulada “Abundância da Madeira”, propõe uma viagem pelas paisagens da Ilha da Madeira. Campos, mares e montanhas tornam-se pontos de partida para uma reflexão sobre a forma como a Ilha é vista. Pelo olhar de quem nela vive, de quem um dia a habituou e dela teve de partir, ou de quem, nunca tendo vivido nela, a contempla à distância. Musicalmente, a obra desenvolve-se a partir de um motivo que se repete, fragmenta, transforma e evolui até ao seu esgotamento. Este motivo estabelece uma ligação entre música e texto, funcionando como fio condutor de todo o percurso. A obra culmina num final afirmativo, em maior, cuja dimensão encontra também a sua origem no próprio texto». Estas citações dos quatro compositores mostram claramente as diferentes posturas face ao desafio que lhes foi colocado. No entanto, o resultado final, mais do que um conjunto de composições isoladas, apresenta-se como uma tetralogia: quatro capítulos, quatro visões diferentes de uma só ideia: a celebração da descoberta da Madeira, no cinquentenário da sua autonomia.

João Vaz