ATRAVESSANDO O ATLÂNTICO
ATRAVESSANDO O ATLÂNTICO

Marco Brescia
órgão
Ensemble Favola d'Argo
Rosana Orsini
soprano
Luciano Botelho
tenor
Jorge Montes
violino I
Roberto Santamarina
violino II
Maria José Pámpano
viola
Carlos García Amigo
violoncelo
Fernando Abreu
clarinete
25 OUT 18h00
Funchal, Igreja do Convento de Santa Clara
Programa:
Sigsmund von Neukomm (1778 -1858)
¬ Morceaux pour orgue expressif (1836)
› 2.e Livre, 1 (ut majeur)
› 1.er Livre, 7 (la mineur)
José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)
¬ Missa de Santa Cecília (1826)
› Laudamus
› Qui tollis pecata mundi
Sigsmund von Neukomm
¬ Marcha fúnebre sobre a morte do Conde da Barca (1817)
José Maurício Nunes Garcia
¬ Ulisseia (1809)
› Ninfas do Tejo ameno, ária do Génio de Portugal
Marcos Portugal (1762-1830)
¬ Matinas de Nossa Senhora da Conceição (1802)
› Beatissimae Virginis Mariae
Sigsmund von Neukomm
¬ Morceaux pour orgue expressif (1836)
› 3.e Livre, 2 (fa majeur)
› 3.e Livre, 8 (si mineur)
¬ Missa Solemnis (1817)
› Quoniam tu solus sanctus
André da Silva Gomes
(Lisboa, 1742 – São Paulo, 1844)
¬ Missa a 5 vozes (séc. XVIII)
› Domine Deus
No final do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, o espaço atlântico que unia Portugal e Brasil tornou-se um território de intensa circulação de pessoas, ideias e práticas culturais. O mar, longe de representar uma barreira, funcionava como um verdadeiro caminho de ligação entre dois mundos, permitindo que músicos, partituras e estilos atravessassem o oceano e contribuíssem para a construção de uma vida musical compartilhada. O programa apresentado neste concerto percorre justamente esse universo atlântico, reunindo obras de quatro compositores cuja trajectória ilustra, de maneiras diferentes, essa rede de conexões: José Maurício Nunes Garcia, André da Silva Gomes, Marcos Portugal e Sigismund von Neukomm. Nascido em Lisboa, Marcos Portugal (1762-1830) foi um dos compositores mais célebres da sua geração. Após consolidar carreira na Europa, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1811, onde se tornou uma figura central da Capela Real da corte portuguesa instalada na cidade. A sua música sacra combina elegância melódica e forte influência do estilo italiano, refletindo a circulação de repertórios e músicos entre as duas margens do Atlântico. Também vindo de Lisboa, André da Silva Gomes (1742-1844) estabeleceu-se ainda jovem em São Paulo, onde actuou por décadas como mestre de capela da Sé. A sua obra contribuiu para consolidar no Brasil uma tradição musical ligada aos modelos europeus, mas adaptada às condições locais, tornando-se uma das figuras fundamentais da música luso-brasileira do período colonial. José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) representa a força criativa do próprio Brasil neste sistema cultural atlântico. Nascido no Rio de Janeiro, tornou-se mestre de capela da corte após a chegada da família real em 1808. A sua produção musical revela uma síntese original entre o estilo clássico europeu e a tradição litúrgica portuguesa, demonstrando como o Brasil também foi um importante centro de criação musical. A presença de Sigismund von Neukomm (1778-1858) amplia ainda mais esse panorama. Nascido em Salzburgo e discípulo caro a Joseph Haydn, o compositor chegou ao Rio de Janeiro em 1816 e participou da vida musical da corte joanina. A sua música evidencia a ligação direta entre o universo musical centro-europeu e o ambiente cultural luso-brasileiro. Reunidas neste programa, as obras desses compositores revelam um repertório moldado pelas rotas marítimas que ligavam Lisboa, Rio de Janeiro e outras cidades do Atlântico. Mais do que separar continentes, o mar atuou como uma ponte cultural, permitindo a circulação de ideias e a formação de uma tradição musical partilhada entre Portugal e Brasil.
Marco Orsini-Brescia